Reabilitação Neuro

Pilates na Reabilitação Neurológica:
Benefícios e Abordagens

Karla Seleme
Por Karla Seleme
15 de Maio de 2024
6 min de leitura

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Existem inúmeros processos de reabilitação neurológica para as patologias que atingem as diferentes faixas etárias. Algumas geram alterações motoras irreversíveis, outras temporárias. Mas quando falamos sobre o corpo humano, precisamos entender que o movimento é apenas o resultado final de um processo muito mais complexo.

Como educadora do movimento, sempre reforço: antes do músculo contrair, existe um comando neural. Se queremos tratar a sequela, precisamos aprimorar a causa. O Método Pilates, quando integrado à Fisioterapia Neurofuncional, torna-se uma ferramenta poderosa não apenas para "fortalecer o corpo", mas para reensinar o cérebro.

Ao longo da minha prática clínica, percebo que focar apenas na repetição mecânica é insuficiente. É preciso intenção, consciência e estratégia. Vamos entender como essa abordagem se aplica às principais condições neurológicas que encontramos no consultório.

Filosofia Neuropilates

"Ensinar movimento é ensinar o cérebro." — Karla Seleme
Infográfico: O Poder do Pilates na Reabilitação Neurológica
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1. Acidente Vascular Cerebral (AVC)

O AVC pode acontecer decorrente de uma isquemia (mais comum, obstrução arterial) ou hemorragia (mais grave, ruptura de vaso). Independentemente do tipo, a sequela motora clássica é a hemiplegia ou hemiparesia.

Muitas vezes, focamos tanto no padrão patológico (o que está errado) que esquecemos de potencializar o que o paciente ainda tem de preservado. No Neuropilates, a abordagem começa pela estabilidade central.

A Estabilidade Central (Powerhouse) como Base

"O fortalecimento do core é essencial para a estabilidade. Antes que qualquer movimento de braço ou perna ocorra com qualidade, o paciente precisa de estabilidade de tronco."

O princípio da Centralização do Pilates é vital aqui. Ensinar o paciente a ativar o Powerhouse proporciona a âncora necessária para que o movimento das extremidades seja mais fluido e menos compensatório. Além disso, a paralisia de um lado do tórax causa insuficiência respiratória e fadiga. Ensinar a respiração consciente não só melhora a oxigenação, mas acalma o sistema nervoso, preparando-o para o aprendizado motora.

Facilitar padrões normais de movimento e inibir padrões espásticos é a meta. O Pilates complementa a teoria neuroevolutiva ao oferecer um ambiente controlado (o Reformer, por exemplo) onde a gravidade pode ser manipulada para facilitar ou desafiar o movimento.

2. Doença de Parkinson

O Parkinson não é apenas "tremedeira". Existem sintomas cruciais que afetam a qualidade de vida e que respondem muito bem ao Pilates:

  • 1Acinesia e Bradicinesia: Ausência ou lentidão de movimento, afetando o "start" da ação.
  • 2Rigidez Muscular: Resistência do tipo "roda denteada", que limita a amplitude.
  • 3Instabilidade Postural: Perda de reflexos de proteção, aumentando e muito o risco de quedas.
  • 4Festinação: A marcha com passos curtos e rápidos, onde o centro de gravidade se desloca para frente.
"No Neuropilates, não focamos apenas na rigidez muscular, mas em estratégias cognitivas que ajudam o cérebro a contornar os bloqueios de movimento, usando pistas visuais e auditivas."

Para esses pacientes, precisamos de Big Movements (movimentos amplos) e estratégias de dupla tarefa (motor + cognitivo). O Pilates, com suas molas, oferece feedback proprioceptivo constante, ajudando o paciente a "sentir" onde seu corpo está no espaço, algo que o Parkinson tenta apagar.

3. Esclerose Múltipla (EM)

Na EM, o grande desafio é a fadiga. Antigamente, exercícios eram contraindicados pois o aumento da temperatura corporal piorava os sintomas. Hoje, sabemos que o movimento é essencial, desde que dosado.

O Pilates na EM foca na eficiência energética. Se ensinamos o corpo a gastar menos energia para realizar tarefas simples, sobra mais disposição para o dia a dia. Também trabalhamos o fortalecimento de músculos não afetados para prevenir fraqueza secundária por desuso.

Neuro Dica

Respeite a fadiga: Intercale exercícios ativos com momentos de recuperação ou respiração. A fadiga neural é real e deve ser respeitada.

Casos Reais: A Teoria na Prática

A teoria é linda, mas é na prática clínica que vemos a transformação. Vou compartilhar dois casos que atendi e que ilustram o poder dessa abordagem integrada.

Caso 1: Seu Nelson (AVC Crônico)

70 anos | 16 anos pós-lesão

Seu Nelson chegou com uma hemiparesia à esquerda instalada há mais de uma década. Muitos diriam que, após tanto tempo, "não há mais neuroplasticidade possível". Isso é um mito. O cérebro sempre aprende.

Objetivos: Focamos em minimizar o tônus anormal, ganhar amplitude de movimento e melhorar a função nas atividades diárias (AVDs).

Resultado

A maior vitória não foi apenas motora. Seu Nelson relatou sentir-se "mais feliz e satisfeito" a cada desafio vencido. O Pilates devolveu a ele a sensação de capacidade, algo que o diagnóstico muitas vezes rouba.

Caso 2: Regina (Meningite Aguda)

56 anos | Pós-UTI Recente

Diferente do Nelson, Regina estava na fase aguda. Recém-saída da UTI após uma meningite por Herpes Zoster, apresentava marcha instável, hemiparesia e muita rigidez cervical.

Utilizamos acessórios leves (bola, rolo, disco) em domicílio. No início, vencer a gravidade era o maior desafio. Mas como ela já praticava Pilates antes, o resgate dos princípios (memória motora) foi um trunfo.

Resultado

O médico previu 6 meses para recuperar a amplitude do ombro. Com 3 meses de Neuropilates focado, ela recuperou a amplitude completa, sem dor. A técnica acelerou o processo natural de recuperação.

Conclusão

O corpo obedece, mas é o cérebro quem comanda. Seja no AVC, Parkinson ou EM, o profissional do movimento não deve apenas "passar exercícios". Ele deve criar um ambiente onde o sistema nervoso se sinta seguro para aprender e se adaptar.

Essa é a essência do Neuropilates. Técnica sem escuta não sustenta evolução. Entenda o ser humano à sua frente, e a técnica será apenas uma consequência.

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