Ouça este artigo
Ouça este artigo: Pilates na Reabilitação Neurológica
Este áudio foi organizado com apoio de inteligência artificial. Algumas palavras podem apresentar pequenas variações, sem comprometer o sentido e a mensagem principal do conteúdo.
Existem inúmeros processos de reabilitação neurológica para as patologias que atingem as diferentes faixas etárias. Algumas geram alterações motoras irreversíveis, outras temporárias. Mas quando falamos sobre o corpo humano, precisamos entender que o movimento é apenas o resultado final de um processo muito mais complexo.
Como educadora do movimento, sempre reforço: antes do músculo contrair, existe um comando neural. Se queremos tratar a sequela, precisamos aprimorar a causa. O Método Pilates, quando integrado à Fisioterapia Neurofuncional, torna-se uma ferramenta poderosa não apenas para "fortalecer o corpo", mas para reensinar o cérebro.
Ao longo da minha prática clínica, percebo que focar apenas na repetição mecânica é insuficiente. É preciso intenção, consciência e estratégia. Vamos entender como essa abordagem se aplica às principais condições neurológicas que encontramos no consultório.
Filosofia Neuropilates

1. Acidente Vascular Cerebral (AVC)
O AVC pode acontecer decorrente de uma isquemia (mais comum, obstrução arterial) ou hemorragia (mais grave, ruptura de vaso). Independentemente do tipo, a sequela motora clássica é a hemiplegia ou hemiparesia.
Muitas vezes, focamos tanto no padrão patológico (o que está errado) que esquecemos de potencializar o que o paciente ainda tem de preservado. No Neuropilates, a abordagem começa pela estabilidade central.
A Estabilidade Central (Powerhouse) como Base
O princípio da Centralização do Pilates é vital aqui. Ensinar o paciente a ativar o Powerhouse proporciona a âncora necessária para que o movimento das extremidades seja mais fluido e menos compensatório. Além disso, a paralisia de um lado do tórax causa insuficiência respiratória e fadiga. Ensinar a respiração consciente não só melhora a oxigenação, mas acalma o sistema nervoso, preparando-o para o aprendizado motora.
Facilitar padrões normais de movimento e inibir padrões espásticos é a meta. O Pilates complementa a teoria neuroevolutiva ao oferecer um ambiente controlado (o Reformer, por exemplo) onde a gravidade pode ser manipulada para facilitar ou desafiar o movimento.
2. Doença de Parkinson
O Parkinson não é apenas "tremedeira". Existem sintomas cruciais que afetam a qualidade de vida e que respondem muito bem ao Pilates:
- 1Acinesia e Bradicinesia: Ausência ou lentidão de movimento, afetando o "start" da ação.
- 2Rigidez Muscular: Resistência do tipo "roda denteada", que limita a amplitude.
- 3Instabilidade Postural: Perda de reflexos de proteção, aumentando e muito o risco de quedas.
- 4Festinação: A marcha com passos curtos e rápidos, onde o centro de gravidade se desloca para frente.
Para esses pacientes, precisamos de Big Movements (movimentos amplos) e estratégias de dupla tarefa (motor + cognitivo). O Pilates, com suas molas, oferece feedback proprioceptivo constante, ajudando o paciente a "sentir" onde seu corpo está no espaço, algo que o Parkinson tenta apagar.
3. Esclerose Múltipla (EM)
Na EM, o grande desafio é a fadiga. Antigamente, exercícios eram contraindicados pois o aumento da temperatura corporal piorava os sintomas. Hoje, sabemos que o movimento é essencial, desde que dosado.
O Pilates na EM foca na eficiência energética. Se ensinamos o corpo a gastar menos energia para realizar tarefas simples, sobra mais disposição para o dia a dia. Também trabalhamos o fortalecimento de músculos não afetados para prevenir fraqueza secundária por desuso.
Neuro Dica
Casos Reais: A Teoria na Prática
A teoria é linda, mas é na prática clínica que vemos a transformação. Vou compartilhar dois casos que atendi e que ilustram o poder dessa abordagem integrada.
Caso 1: Seu Nelson (AVC Crônico)
70 anos | 16 anos pós-lesão
Seu Nelson chegou com uma hemiparesia à esquerda instalada há mais de uma década. Muitos diriam que, após tanto tempo, "não há mais neuroplasticidade possível". Isso é um mito. O cérebro sempre aprende.
Objetivos: Focamos em minimizar o tônus anormal, ganhar amplitude de movimento e melhorar a função nas atividades diárias (AVDs).
Resultado
Caso 2: Regina (Meningite Aguda)
56 anos | Pós-UTI Recente
Diferente do Nelson, Regina estava na fase aguda. Recém-saída da UTI após uma meningite por Herpes Zoster, apresentava marcha instável, hemiparesia e muita rigidez cervical.
Utilizamos acessórios leves (bola, rolo, disco) em domicílio. No início, vencer a gravidade era o maior desafio. Mas como ela já praticava Pilates antes, o resgate dos princípios (memória motora) foi um trunfo.
Resultado
Conclusão
O corpo obedece, mas é o cérebro quem comanda. Seja no AVC, Parkinson ou EM, o profissional do movimento não deve apenas "passar exercícios". Ele deve criar um ambiente onde o sistema nervoso se sinta seguro para aprender e se adaptar.
Essa é a essência do Neuropilates. Técnica sem escuta não sustenta evolução. Entenda o ser humano à sua frente, e a técnica será apenas uma consequência.
